| Foto: APAFUNK - Associação dos Profissionais e Amigos do Funk |
O funk é a cultura de quem grita. Ignorar a trajetória do funk enquanto movimento cultural de resistência é ignorar a luta de movimentos sociais que buscavam (e buscam) a sobrevivência e empoderamento de uma população historicamente oprimida. Como qualquer música ou movimento cultural, o funk também tem o seu lado opressor, enraizado na favela que cresceu sob a égide do machismo, ainda mais violento que aquele que, também, afligiu e aflige a zona sul branca e rica do Rio.
O Cacos UERJ, enquanto movimentação de estudantes, também é funk, também é resistência. Enquanto Comunicadoras e Comunicadores Sociais, precisamos trazer os movimentos sociais para dentro da Universidade, para serem pautados em nossos debates e para que não se caia no lugar comum de estigmatizar determinada expressão cultural pela distância ou pela circunstância. Uma formação completa deve passar pela problematização e contextualização do mundo que nos rodeia, sempre.
Em 2009, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou a lei nº 5.543, que reconhece o funk como movimento cultural e musical de caráter popular. A lei não muda o pensamento nem impede a segregação e hierarquização das diversas manifestações culturais, mas em sua face mais simples assegura o reconhecimento, pelo Estado, de que a favela também cria, se manifesta, se expressa, é cultura.
Em 2012, um grupo de estudantes de diversas escolas de Comunicação do Rio - incluindo UERJ - escreveu coletivamente o manifesto “O Bonde Manifesta”, marco do nascimento do Coletivo Enecos Bonde do Rio. Abaixo reproduzimos o manifesto, oportuno ao trazer para mais perto de nós, estudantes de Comunicação, o grito de resistência da favela.
"O BONDE MANIFESTA
Que bonde é esse?
O bonde não tá passando, ele veio pra ficar.
Um coletivo que se formou em 2012 através da articulação da Regional Sudeste II - Rio de Janeiro, da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecos). Acreditamos que muitas pessoas vão passar para contribuir com o aprofundamento dos nossos debates e para construir e articular a Enecos com uma perspectiva local e autêntica na sua diversidade.
Então, dá o papo:
O social da comunicação é o que nos interessa. Em torno dele pautamos a nossa qualidade de formação, o combate às opressões e a necessidade de lutarmos pela democratização da comunicação, bandeiras institucionais da Enecos, pela perspectiva de que a universidade deve exercer, também, um papel de aproximação com a cidade e os nichos sociais. Para atuação da Executiva no Rio, o debate dessas bandeiras, aliado aos interesses das/os estudantes que atuam no coletivo, acaba sendo atravessado também pela discussão do nosso papel como comunicadoras/es frente à cultura popular carioca e às práticas e problemáticas atuais de espaço de um Estado cuja capital passa por intenso processo de transformação urbana.
O Funk não é modismo
Não é só falar, nem falar só de funk. O que nos levou a pautar esta cultura não foi apenas a identificação por fazermos parte dela. Foi enxergar que, no contexto do Rio, estudar, debater e aproveitar o potencial de comunicação popular do funk carioca é uma necessidade. Primeiro veio a vontade de estudar o funk e pautá-lo na Enecos, pra tentar complexificar mais a ideia que se tem de música opressora. O funk carioca, como qualquer tipo de música e movimento cultural, sem dúvida tem faces opressoras. Mas, ao mesmo tempo, podemos observá-lo como espaço que começa a ser permeado por pautas como diversidade sexual e feminismo, sem ignorar a trajetória já trilhada, há muito tempo, pelo funk de cunho social e o fato de que nasceu de um grupo oprimido. Depois, veio a essência e a vontade de nos movimentarmos em um coletivo, para tocar as tarefas da Regional Rio de forma mais horizontal. E é claro, como característica da nossa atuação, nos inspiramos na atitude funk, sua descontração e sua inventividade na forma de expressão.
Somos @ funkeir@ com o microfone na mão. Somos o funk que, quando toca, não deixa ninguém parado. Somos @ oprimid@ lutando por democratização. Somos tod@s comunicação.
Somos Enecos Coletivo Bonde do Rio.
Chega junto!"
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